quarta-feira, 3 de junho de 2015

Glóbulos Verdes


Aqui na Base Bela Vista temos um pequeno pomar com árvores nativas e também uma ou outra goiabeira, pés de pêra, de Marmelo, Nogueiras Pecan entre outras não nativas ( exógenas).

Desenvolver este pomar por si só  foi um trabalho épico de meu pai, pois quando criança,  lembro dele insistentemente lutando contra formigas, brocas, carunchos e pragas de todos os cantos, que iam atacando as mudas das árvores que eram plantadas.

O resultado da atuação destas pragas, víamos SEMPRE uma ou duas semanas depois, quando voltávamos ... e as mudinhas se tornavam restos de um massacre na batalha do pomar!

As formigas cortadeiras são um caso a parte, elas  praticamente inviabilizam o plantio de certos tipos de árvores como  amoreiras, caquis e  cítricas ... parecem ter uma curiosidade esfomeada sobre  “novos sabores” e basta você plantar uma cítrica por exemplo que elas  rapidamente ( uma semana) acham a muda e se refestelam.

Observei a vida inteira o desenvolvimento destas árvores, as poucas que vingaram, e  pude verificar claramente o quanto as árvores não nativas (exógenas)  são mais atacadas por parasitas e têm o seu desenvolvimento  dificultado.

Todas estas árvores escolhidas pelas formigas são podadas impiedosamente  e constantemente não sobrando nada! A árvore fica nua, despelada de folhas e quando  estão brotando novamente, são mais uma vez, acho que adoram um brotinho. Para combatê-las seria necessário o uso de veneno, porém minha orientação ecológica não permite o uso deste recurso pois acredito que este é o preço que a natureza nos cobra para convivermos  com ela harmonicamente e não devemos  combatê-la, apesar de ser difícil ver as mudinhas morrerem... mas de fato, com o passar do tempo e com a observação, mudei de opinião sobre animais e plantas parasitas ,que se constituem em uma brigada ecológica contra invasores.

Percebo  que quanto mais  equilibrada ecologicamente for uma área mais ela tende a se estabilizar  por conta própria, e os parasitas parecem ser  os glóbulos brancos do nosso sistema imunológico só que do organismo vivo da mata; de certo estão mais para glóbulos verdes atacando preferencialmente os seres exógenos que destoam da ecossistema local protegendo-o. Um exemplo  muito bacana destes parasitas são as ervas de passarinhos. Esta família de plantas utilizam, como  não poderia deixar de ser, os passarinhos para transportarem suas sementes e se disseminarem.

Algumas sementes  germinam nos galhos das árvores a partir das fezes quem  respingam nos galhos das árvores, outras  quando são regurgitadas e  grudam nos galhos quando os passarinhos vão limpar o bico; a partir daí  as raízes destas parasitas penetram  nas cascas das árvores hospedeiras o bastante para extrair a seiva (floema) a qual  rouba para se alimentar.

Parece tudo muito ardiloso pois se alastram  com facilidade e  em grandes infestações matam a árvore hospedeira, curiosamente elas costumam infestar mais árvores exógenas, pois o caule desta árvores não possuem as proteções adequadas , como  descascamentos ou enzimas, para  driblar o ataque destes parasitas.No passado confesso não gostava muito delas, e quando eu podia eu as arrancava com desdenho, porém surgiu um novo dado observado que mudou minha forma de enxergá-las:




Regurgitando
Recentemente  registrei uma nova espécie de ave para a região de Ibiúna (ARAPONGA DO HORTO), local onde se situa o Parque Estadual do Jurupará e mais especificamente a BASE BELA VISTA. Para mim registrar mais esta ave para  o parque foi uma conquista, uma grande alegria, e quando fui verificar minhas fotos, percebi que a Araponga do Horto  ( conforme  mostra a seqüência de fotos  do post) estava regurgitando as sementes de uma espécie de parasita que infestava a própria árvore onde a registrei ... lá estava  a cúmplice do crime!


De fato  as frutas da parasita eram vermelhinhas, apetitosas, e a araponga regurgitou mais de uma semente, e parecia que  vinham com um muco já prontinhas para grudar! Ou seja, a presença do alimento contribuiu  para a presença da ave e vice-versa, assim funciona a teia alimentar da natureza , onde  um indivíduo  colabora com o outro das formas mais variadas ...
http://www.wikiaves.com.br/1697550&t=u&u=505&p=1
observe a semente grudando no galho


Parasitas por si só  não são boas nem más , são parte de um  enorme quebra cabeça  de milhões de peças que  é  a biodiversidade e entendê-las  é o caminho para respeitá-las, na verdade  a natureza como um todo é generosa dentro de seus processos , e mesmo os parasitas retribuem para o conjunto de interações e controles entre os seres vivos, desta forma  um eventual mal que possa causar  ao indivíduo hospedeiro pode ser interpretado  como   um mal , mas vejo que nada mais é que um controle harmonico... mesquinho, explorador,e cruel mesmo, só o homem.

https://youtu.be/e5nzPzeSoOQ



Veja a foto no wikiaves: http://www.wikiaves.com.br/1697550&t=u&u=505&p=1



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domingo, 18 de janeiro de 2015

O “ canto da Sereia”




 O “ Canto da Sereia”

Antes de a fotografia dominar  98% do meu dia nas viagens à BASE BELA VISTA a pescaria era a  atividade  principal. Naquela época eu era criança e não tinha uma máquina fotográfica, assim sendo, não sabia que amava tanto fotografar  a natureza e suas surpresas!

Passava horas na beira da represa em busca do meu prêmio: um peixe bem grande para exibir (pois nem gosto muito de peixe), mas também torcia para avistar algum animal durante este período de silêncio e verdadeira  meditação.

Uma vez porém, meu sonho foi realizado, mas meio que as avessas !! Durante uma destas pescarias , e acompanhado de meu primo Richard, ocorreu um  episódio que para mim ficou marcado como um dos momentos onde mais senti medo na vida.

Era meio da tarde e estávamos pescando na beira da represa da Fumaça (represa dentro do parque Jurupará) quando ouvimos bem ao longe uma espécie de Canto da Sereia; era um som  que lembrava aquelas trilhas de filme de terror e o bom é que  este som estava longe!
Eu e meu primo até comentamos que parecia uma sereia, e na época eu já sabia que a mitologia dizia que as sereias cantavam  para atrair os marinheiros e depois os comiam ...

Aos poucos fomos seguindo com os  ouvidos o som ao longo da serra que ficava ao fundo  desta represa, e cada vez  a coisa ficava mais próxima... Quando este bicho gritou do nosso lado, meu DEUS! Arrepiei até a alma ... Para piorar o bicho parecia estar na mata bem  no caminho de volta para o rancho, nem correr nos podíamos, pois estaríamos indo ao encontro dele! Foi só tremedeira e ao que parece, ao escutar nossa valentia, o bicho ficou quieto e não gritou mais, parecia que estava nos observando ... pensei na ocasião. Demos um pequeno tempo para ver o que acontecia, deve ter sido uns dois segundos que duraram horas ... e corremos!

Anos depois descobri que se tratava de um singelo Cachorro do Mato (Cerdocyon thous) na época do cio, mas seu  “uivo" é  uma coisa bem estranho mesmo!

Fazia muitos anos que não tínhamos sinais da presença deste  bichinho na região, lembro que o ultimo vestígio de sua presença que vislumbrei  é do meu tempo de criança mesmo; eu estava junto com o caseiro do sítio, o Seu Zé Rosa, e vimos uma cana mastigada pela metade, e o Zé não teve dúvidas , disse “- É cachorro do Mato! Esse bicho é fogo! Sobe em bananeira pra comer os cachos maduros!”

O cachorro do mato  de fato é um bicho inofensivo, se alimenta de frutas, ovos, e pequenos animais, quando a noite, durante focagens noturna o avistamos ele tende a ficar  parado, confiando na sua camuflagem notuna, e ao direcionarmos  a lanterna  para ele, seus olhos assumem uma coloração amarelada. Foi assim que tirei estas primeiras fotos do bichinho na BASE BELA VISTA, com minha noiva o iluminando com uma lanterna Tática.!


Ficamos muito felizes em poder ver este bicho tão pacato, não chegamos muito perto para não assustá-lo , e ele ficou um tempão parado nos olhando! Muito Bom!

Escute  o  "CANTO" do cachorro do mato e veja se não tenho razão:


https://drive.google.com/file/d/0ByhGbWzFl7tJblp4Y1IyTmRLbGs/view?usp=sharing



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O anoitecer da mata.




Há um clima mais intenso, uma expectativa pairando no ar; o sol vai se pondo atrás da serra, o tempo mais denso e cheio de sons, de cheiros e de cores empalidecidas pela luz que se acaba. Não fosse o ataque de  insetos , poderíamos  confundir  com o paraíso , mas eles  cobram o seu  pedágio! Pago  com prazer!
As estrelas começam a aparecer, uma a uma, por entre as copas das árvores em pedaços de céu; só as vejo muitas vezes com o rabo do olho, pois se eu olhar para elas fixamente não as enxergo, coisas do  olho humano, mas aos poucos elas perdem a timidez  e várias, que até então enganaram a minha visão, vão surgindo.
Nessa hora todos os sentidos parecem não funcionar direito, somente a audição, e o silêncio de nossa Civilização é uma benção! É nessa hora  vejo vultos que não identifico, odores que reconheço, penso em coisas que não entendo mas ouço ruídos que sei de onde vêm, sei que estão lá, meus  amigos e companheiros do planeta,sua companhia escondida já  é reconfortante, e a minha imaginação, curiosidade, medo e fascínio crescem com o escurecer.
Um bando de Urus costuma cantar, se empoleirando ao longe, e fico calculando onde eles estarão? Pelo canto posso reconhecer os pássaros  que estão por perto, são visitas bem vindas que acompanham os grilos, sapos e rãs, alternando-se em sons já tão conhecidos e confortáveis que me acalmam... assim começa a sinfonia da noite, e o ruído da mata muda por completo, parece querer acompanhá-los com o rolar do riacho em seu caminho, o soprar do vento nas folhas ou o cair de um galhos no chão, e nesse momento me sinto parte de tudo isso! Os vagalumes começam a piscar, primeiro cada um por si, para depois se entenderem e piscarem todos juntos!
Sei que os animais do dia estão se recolhendo silenciosamente para suas tocas e tento imaginá-los... medrosos e escondidos dos dentes e das armadilhas.
Os animais da noite com todo cuidado começam a se movimentar também, absolutamente calados e desconfiados. Não os vejo mas espero que estejam por lá, talvez no dia seguinte veja seus rastros ou quem sabe eu os enxergue ao longe, num relance de distração, para depois vê-los fugirem mata adentro  onde vivem e sobrevivem ,e quase sempre somos seus inimigos.
Sempre torci por eles, por todos eles, seja o predador ou a presa, o feio ou o bonito, o grande ou o pequeno, o bom ou o mau, realmente não importa, pois esses são valores humanos e a natureza é maior que isso, só nos permite contemplá-la e não julgá-la, entendê-la ou subjugá-la , nós é que estamos no banco dos réus.
Toda vez que posso faço isso, entro na mata aqui do Jurupará e deixo a noite cair, vou para um canto tranqüilo, sento e não penso em nada, dizem que é uma meditação, mas para mim é um tipo de saudade, uma forma de aproveitar os últimos segundos de algo que se acaba, um sentimento de perda, uma tristeza por estar feliz com algo que parece cada vez menos pessoas dão valor, uma solidão no meio da multidão enfeitiçadas feito  mariposas  pelas luzes da cidade. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Olha o Quati


Olá a todos! Como estão?

Passei algum tempo sem escrever, mas não sem produzir material para este blog que tanto estimo; continuarei postando  periodicamente, ma medida  em que o tempo permitir.

Quati  subindo na árvore para se proteger.

Quero iniciar esta fase de posts com um bichinho que é um dos meus favoritos, o QUATI !

Aqui no Jurupará (PEJU) , durante muito tempo nunca tinha visto um, aliás esta região passou por um período difícil, com muita caça e palmiteiros .
Atualmente, com a implementação mais efetiva do PEJU,  a coisa vem mudando de figura, a região está mais deserta pois muitos moradorestradicionais  se mudaram, abandonando suas casas; isto ocorre  por não terem mais uma forma de subsistência na região e por não receberam apoio das  autoridades  competentes.

Este processo   deixou  a região mais  aliviada da intervenção humana,  e diminuiu a pressão sobre os animais que eram caçados e muito. Métodos de implantação do parque a parte (não é o objetivo deste Post) o fato  é que,  atualmente, tenho observado um retorno da fauna , e isto me deixa muito feliz! é por isso que hoje posso apresentar  meus amigos quatis que ressurgiram na área com mais intensidade. Ano passado fiz estas tomada aqui:







Este primeiro vídeo foi um achado, única vez que avistei o bicho na região e tive  a chance de filmar ; estava  fotografando alguns pássaros, bem camuflado,  e o bicho apareceu sozinho. Trata-se provavelmente de um macho;  notem que  ao sentir  o meu cheiro ( pois não me viu)  já se mandou! A experiência o ensinou que onde tem cheiro de homem há perigo ...

Mas o principal evento ocorreu  semana passada, quando  em uma das expedições fotográficas do CEO – Centro de estudo Ornitológicos ( organização não governamental da qual  participo ) eis que no meio da mata  surge um bando deles! Fiquei  tão emocionado que nem gravei direito , mas o registro , mesmo que  de forma  meio estabanada  já valeu!  No futuro prometo  melhorar a qualidade do vídeo com novas filmagens!
Olha o vídeo ai:





O quati não é um bicho mansinho, minha mãe me conta que ,quando pequena, sua família tinha um de estimação, dou um desconto para esta falha ambiental de meu avô pois na época não havia  esta consciência  de não se condenar animais silvestres a sofrerem com a prisão do cativeiro. Volta e meia o bicho pulava na perna de um lá da família  e mordia bem mordido! realmente eu faria o mesmo se fosse o quati!

No  vídeo , talvez não fique claro , mas haviam muitos quatis! Mais de 10 ,poderão notar que eles vasculham o solo em busca de insetos , minhocas  mas pode  violar ninhos com ovos ou filhotes e comer  outros  animais pequenos como lagartos e  eventualmente camundongos. 
Trata-se de um bando de fêmeas , que costumam andar em grandes grupos com seus filhotes, ao  perceberem perigo ( acho que o barulho da foto  o assustou) se refugiam nas alturas das  árvores. Mas um bando grande  pode se unir para combater alguma ameaça como cobras  e outros predadores menores.



Um fato interessante que notei também é que  alguns pássaros acompanham os quatis  em seu café da manha ...  ao revirarem o solo   os insetos voam  e são capturados pelas pássaros, no caso   observei  o Arapaçu-liso (Dendrocincla turdina)  praticando esta interação com o bando.

Agradeço a companhia dos colegas de avistamento Frederik Brammer e Peterson Bacchin , excelentes companheiros de passarinhada!

Abraço a todos e até  o próximo avistamento!




sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Veado Mateiro



Também conhecido como suaçupita, guatapará, guassu-pará e veado-pardo, veado mateiro é um animal discreto. Nas regiões onde divide o espaço com o ser humano, tende a se deslocar na boca da noite e no amanhecer, aproveitando um pouquinho de lusco-fusco destes períodos, é uma adaptação que a maioria dos animais fazem para não cruzar seu caminho com o do ser humano, por uma simples questão de sobrevivência.






É um bicho bem silencioso, ele pode passar do seu lado e, se você não estiver atento, não vai escutar coisa alguma, sua vocalização mais conhecida é um tipo de espirro que ele faz para dar o alarme quando pressente algum perigo, principalmente quando a fêmea tem cria ou estão andando em casal, apesar de seus hábitos serem solitários. Sua pelagem é castanho-ferruginosa, mais clara no ventre, esbranquiçada na garganta e quase preta em volta dos lábios e no focinho,os chifres simples e delgados, que atingem 12 cm de comprimento, caem em junho e nascem novamente em agosto setembro e só existem no macho.

As várias fotos que estou apresentando aqui foram tiradas de perto do meu rancho , de dentro de um pomar que temos;para fotografá-lo utilizamos uma máquina fotográfica de espera com um sensor de presença, e a armamos geralmente ao pé de alguma árvore que esteja com frutas, como pés de pitangas, caquis, nêsperas, jabuticabas etc, ele adora pegar as frutas que caem no chão ou as que estão ao seu alcance! mas há fotos tiradas por mim também presenciais... o interessante é que o veado costuma aparecer bem no cair da noite , lá por umas 19:00 ou 19:30 e, se nos aproximarmos com cautela e devagar ele não se espanta, ao iluminarmos ele com a lanterna o animal não entende que esta sendo iluminado , ele não sabe que o estamos enxergando, a única coisa que o espanta é a sua própria sombra que se forma com a luz da lanterna, pois isso ele reconhece, no mais confia na sua camuflagem ao acreditar que está na proteção da noite.




Com licença:

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Nome vulgar: VEADO MATEIRO
Classe: Mammalia
Ordem: Artiodactyla
Família: Cervidae
Nome científico: Mazama americana
Nome inglês: Deer
Distribuição: Leste do México até o Norte da Argentina
Habitat: Campos e florestas do nível do mar até 5.000m
Hábito: Diurno e noturno
Comportamento: Solitário
Longevidade: 13 anos
Maturidade: Fêmea - 1 a 2 anos, Macho - 1 ano
Época reprodutiva: outubro a janeiro
Gestação: 225 dias
Nº de filhotes: 01
Nº de crias: 01
Peso adulto: 8 a 25 Kg
Peso filhote: 510 a 576 Kg
Alimentação na natureza: Gramíneas e brotos
Alimentação em cativeiro: Vegetais
Causas da extinção: Caça e destruição do habitat
Veja um vide sobre do Veado mateiro:

video





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Mãe-da-Lua



Meu Pai me conta que a primeira vez que ouviu o canto do Mãe-da-Lua na escuridão da noite, pensou que se tratava de uma pessoa doida perdida no meio da mata ou de uma alma penada, e ficou com medo ... depois é que ficou sabendo de um caboclo que aquilo era uma inofensiva espécie de coruja bocuda!

O Mãe-da-Lua é uma ave de hábitos noturnos e seu canto ecoa na noite de forma solitária, saudosa e misteriosa, podendo ser ouvido por toda a noite ,mesmo que de longe, quebrando o silêncio da mata.

Curiosamente, apesar de a noite esta ave se destacar, durante o dia ela é um mestre na camuflagem!

Você pode estar do lado de um Mãe-da-lua e nem notá-lo por horas; ele geralmente fica imóvel no topo de um pau seco e sua plumagem praticamente se funde à textura da madeira, parecendo uma coisa só, um toco sem vida! É impressionante seu disfarce!

Seu canto pode ser imitado com algum treino e a ave tem como característica responder ao seu chamado; ela facilmente vem fiscalizar seu território e verificar quem é o estranho que o está incomodando; é muito interessante escutar seu canto de pertinho, revela uma complexidade maior do que a que ouvimos ao longe, noite adentro;
Costuma se alimentar de insetos, caçando-os em pleno vôo, mas também pode se alimentar de pequenos vertebrados como rãs, lagartinhos etc. De tão feiosinho, é um animal bunitinho,aliás o jargão de Mãe Coruja também se encaixa ao Mãe da Lua, pois seus filhotes são muito, muuito feiosos! Em noites quentes de verão, gosto de sentar na rede da varanda de meu sítio e ter esta ave como companheira noite afora! Sempre dá um ar de mistério!





Veja o vídeo:
Classificação Científica:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Caprimulgiformes
Família: Nyctibiidae
Chenu & Des Murs, 1851
Espécie: N. griseus
Nome Científico
Nyctibius griseus
(Gmelin, 1789)
Nome em Inglês
Common Potoo

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Olhar Natural



Quando meu Pai chegou ao Brasil ele tinha 8 anos. Saiu às pressas da Lituânia, sua terra natal, horas antes desta ser invadida pela União Soviética, e se refugiou na Alemanha. Posteriormente teve que fugir de novo e desta vez do bombardeio aéreo que os Aliados impuseram à Berlim no final da Segunda Grande Guerra Mundial;e foi quando veio para o Brasil.

Chegando aqui, ele ainda não encontrou tranqüilidade, pois viver em um país estrangeiro, no período pós-guerra, vindo de uma região onde se situava o inimigo vencido (Países do Eixo) não era nada fácil. Todos os dias ele tinha de brigar nas ruas, pois a molecada de seu bairro o tinha como o inimigo derrotado, e vinham dar sua contribuição pós-guerra tacando tijolos na sua cabeça quando ia a pé para a escola;

Não quero falar aqui de guerras, nem tão pouco das brigas de meu Pai, quero falar de paz; mais especificamente, da paz interior que todos nós tanto queremos e que meu Pai a encontrou no convívio com a natureza.
Eu entendo a opção do meu pai em ser introspectivo e ao mesmo tempo olhar para tão longe ... Superado este período difícil que passou, com o detalhe de ter perdido seu pai aos 12 anos e sua mãe aos 18, paulatinamente se adaptou como pode à nossa sociedade, Embrenhou-se na exuberante natureza do Brasil, desvendando-a ao seu modo particular; costumava navegar com um barquinho na represa billings, acampava às suas margens, na época uma selva, e às vezes se metia pelo litoral paulista afora com seu candango.

Não era um biólogo e nem tão pouco um pesquisador, era um homem que buscava a paz, que não teve na infância nem na adolescência.

Acredito que algo maior que o destino levou-o a encontrar seu sonho num passeio de candango com sua noiva, hoje minha mãe, numa estrada de terra feita para manutenção das Usinas da CBA, na região de Ibiúna, por volta de 1965; o Casal avistou do alto de um abismo uma casinha de caboclo, no meio de um vale, absolutamente isolada e cercada pela Mata Atlântica tão intocada na época; pararam, admiraram a paisagem e seguiram viagem.
esta é a casinha


O desmatado no fundo deste vale  e a casinha avistada
Mal sabia ele que 6 anos mais tarde, já casado, compraria este mesmo lugar, sem saber que se tratava daquela casinha que avistara do alto daquele abismo.Foi uma grande surpresa!
Lá, durante anos criou um mundo a parte, longe da sofisticação urbana, e com uma concepção empírica de respeito à natureza, não quis dominar o local, não pensou em criar pastos para gado, sedes com luz elétrica, grandes plantações,cavalos, piscinas ... nada disso! plantou árvores frutíferas, manteve suas terras preservadas e o mais importante, levou a família toda, como um grande desbravador e aventureiro ( acredite, era uma aventura!), para conhecer e admirar com seus olhos a natureza deste país que ele, um estrangeiro, aprendera a amar.

Penso que esta história de meu Pai, apesar de particular, pode ser reeditada por muitas outras pessoas deste mundo, tão cheio de cidades tumultuadas, poluídas e violentas.
Vivemos num mundo angustiado, onde nossa busca pela felicidade quase sempre esbarra na falta de simplicidade, equilíbrio e serenidade em nossas vidas. Somos diariamente bombardeados por sonhos de consumo, padrões
de beleza e metas a serem cumpridas, e temos cada vez menos tempo para observar os caminhos que estamos trilhando e aonde queremos realmente chegar.
Acredito que quando se tem a oportunidade de olhar de perto a natureza, em toda a sua plenitude, ela se revela como um grande mestre em nossas vidas; em cada um de seus seres vivos, seus ciclos e sistemas há uma mensagem infinitamente rica que nos leva ao verdadeiro aprendizado do que é a busca pela harmonia, pela generosidade e pela paz interior.

Graças a meu Pai , que me levou durante toda minha infância à nosso sitio, tive a grande oportunidade de aprender logo cedo as lições da natureza e sempre me encantei com coisas simples como o cair da noite na mata escutando o canto dos Urus, o tilintar dos grilos, o coaxar dos sapos;Me maravilhava ao presenciar as estações do ano passando e produzindo as transformações na mata, nos bichos, no florescer da quaresmeira e no frutificar das jabuticabeiras; e me emocionava ao ver a lua nascer por detrás do morro com uma luz tão forte que parecia um sol iluminando a noite, ou ao olhar para o céu estrelado
numa noite escura e ver estrelas cadentes que
nos davam o direito de fazer um pedido! Tenho a certeza de que, entre meus pedidos de brinquedos, doces e sonhos que fiz, havia entre eles o sonho de preservar este lugar, pois lembro também que ficava de coração partido ao ouvir no meio da noite um tiro de espingarda ou o roncar de uma moto serra.
Minha história não é diferente da história de meu Pai, e nem de qualquer outro ser humano que tenha coração; não tive que passar por fugas de bombardeios, mas me vejo constantemente sofrendo com o descaso de nosso mundo com questões de vital importância para nossa própria sobrevivência ; não tive que lutar contra os vizinhos todos os dias para ir à escola, mas luto do fundo do minha alma contra o ceticismos e a inércia dos acomodados e revoltados de sofá; percebo que cada um, dentro de seu mundo e das suas particularidades, tem uma guerra própria diária em suas vidas.

Algumas das batalhas que travamos nos caem na cabeça como chuva e para elas temos a perseverança como arma, mas outras batalhas somos nós mesmo que escolhemos e temos a persistência como ferramenta ; escolhi esta, a de preservar este lugar que os relatei e ajudar a transmitir, através das fotos e textos que publico, seus conhecimento ocultos que aprendi e continuo aprendendo todo as vezes que piso nesta terra isolada e ao mesmo tempo tão próxima para quem a percebe.

"Não existe uma só explicação que represente por completo o que sinto  quando estou aqui, pois o passado o presente e o futuro se misturam entre sonhos e esperanças que mantenho para este lugar.
As  aventuras vividas, neste universo paralelo a minha  vida na cidade, estão entre as lembranças mais queridas e distantes que possuo; foram ricas  experiências de infância vividas em um cotidiano simples e puro, cada vez mais esquecido  pela modernidade.
 Longe da loucura das cidades e da falta de valores de nossa sociedade, ainda hoje este lugar se apresenta de forma harmônica e generosa para todos que aqui vêm! É com o acúmulo das lições aqui vidas que nasceu o amor, a admiração  e a sintonia que tenho com este lugar.
Enquanto eu puder, sempre virei até aqui viver uma nova surpresa e aprender uma nova lição. Este chão é a minha fonte de sabedoria, meu reduto de paz e meu caminho para uma vida verdadeiramente feliz.
" Mauricio Merzvinskas