sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O anoitecer da mata.




Há um clima mais intenso, uma expectativa pairando no ar; o sol vai se pondo atrás da serra, o tempo mais denso e cheio de sons, de cheiros e de cores empalidecidas pela luz que se acaba. Não fosse o ataque de  insetos , poderíamos  confundir  com o paraíso , mas eles  cobram o seu  pedágio! Pago  com prazer!
As estrelas começam a aparecer, uma a uma, por entre as copas das árvores em pedaços de céu; só as vejo muitas vezes com o rabo do olho, pois se eu olhar para elas fixamente não as enxergo, coisas do  olho humano, mas aos poucos elas perdem a timidez  e várias, que até então enganaram a minha visão, vão surgindo.
Nessa hora todos os sentidos parecem não funcionar direito, somente a audição, e o silêncio de nossa Civilização é uma benção! É nessa hora  vejo vultos que não identifico, odores que reconheço, penso em coisas que não entendo mas ouço ruídos que sei de onde vêm, sei que estão lá, meus  amigos e companheiros do planeta,sua companhia escondida já  é reconfortante, e a minha imaginação, curiosidade, medo e fascínio crescem com o escurecer.
Um bando de Urus costuma cantar, se empoleirando ao longe, e fico calculando onde eles estarão? Pelo canto posso reconhecer os pássaros  que estão por perto, são visitas bem vindas que acompanham os grilos, sapos e rãs, alternando-se em sons já tão conhecidos e confortáveis que me acalmam... assim começa a sinfonia da noite, e o ruído da mata muda por completo, parece querer acompanhá-los com o rolar do riacho em seu caminho, o soprar do vento nas folhas ou o cair de um galhos no chão, e nesse momento me sinto parte de tudo isso! Os vagalumes começam a piscar, primeiro cada um por si, para depois se entenderem e piscarem todos juntos!
Sei que os animais do dia estão se recolhendo silenciosamente para suas tocas e tento imaginá-los... medrosos e escondidos dos dentes e das armadilhas.
Os animais da noite com todo cuidado começam a se movimentar também, absolutamente calados e desconfiados. Não os vejo mas espero que estejam por lá, talvez no dia seguinte veja seus rastros ou quem sabe eu os enxergue ao longe, num relance de distração, para depois vê-los fugirem mata adentro  onde vivem e sobrevivem ,e quase sempre somos seus inimigos.
Sempre torci por eles, por todos eles, seja o predador ou a presa, o feio ou o bonito, o grande ou o pequeno, o bom ou o mau, realmente não importa, pois esses são valores humanos e a natureza é maior que isso, só nos permite contemplá-la e não julgá-la, entendê-la ou subjugá-la , nós é que estamos no banco dos réus.
Toda vez que posso faço isso, entro na mata aqui do Jurupará e deixo a noite cair, vou para um canto tranqüilo, sento e não penso em nada, dizem que é uma meditação, mas para mim é um tipo de saudade, uma forma de aproveitar os últimos segundos de algo que se acaba, um sentimento de perda, uma tristeza por estar feliz com algo que parece cada vez menos pessoas dão valor, uma solidão no meio da multidão enfeitiçadas feito  mariposas  pelas luzes da cidade. 

Um comentário:

  1. Parabéns, Mauricio, pela tocante descrição. Muito boa.Abrs.

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